O Poder Pastoral em Foucault: Fé, Obediência e Submissão

Quando o cuidado vira controle

Michel Foucault investigou as formas de poder que moldam os corpos e subjetividades ao longo da história. Entre suas análises mais instigantes está a noção de “poder pastoral” — uma forma de condução dos sujeitos que nasce no campo religioso, mas que se espalha por toda a sociedade moderna.

O que começou com o pastor guiando suas ovelhas se transformou na escola, na medicina, na psicologia, na política… e até na psicanálise.
Hoje, somos constantemente conduzidos em nome do nosso próprio bem.

Neste artigo, você vai entender:

  • O que Foucault chama de “poder pastoral”;
  • Como ele opera por meio da fé, da obediência e da submissão;
  • Por que ainda hoje obedecemos com culpa — mesmo sem perceber.

1. O que é o poder pastoral?

Foucault descreve o poder pastoral como uma forma de governo originada na tradição cristã ocidental, especialmente no modelo do pastor que cuida de cada indivíduo do rebanho.

É um poder que:

  • Se exerce de forma contínua e individualizada;
  • Visa o bem do outro, e não o interesse do governante;
  • Depende da confissão, da exposição da alma;
  • Está fundado na culpa e na obediência voluntária.

“O poder pastoral é um poder de direção das consciências.” – Foucault


2. Fé e obediência: a sujeição como virtude

Na lógica pastoral, a obediência é um sinal de pureza, humildade e fé verdadeira. O sujeito aprende a renunciar a si mesmo, submeter-se a uma autoridade, e aceitar o cuidado que vem de fora.

Essa estrutura continua viva em:

  • Relacionamentos terapêuticos verticalizados;
  • Modelos religiosos que estimulam culpa como forma de dominação;
  • Práticas escolares e familiares de controle moral;
  • Dispositivos do Estado que dizem agir “para seu próprio bem”.

Obedecer vira virtude moral, e resistir, um desvio ou pecado.


3. Submissão voluntária: o grande truque do poder moderno

O que torna o poder pastoral tão eficaz é que ele não precisa mais forçar: o sujeito pede para ser governado, para ser salvo, corrigido, purificado.

Essa forma de poder é:

  • Indivisível: cuida de cada um, singularmente;
  • Totalizante: busca controlar todas as dimensões da vida (comportamento, desejos, pensamentos);
  • Redentora: promete salvação — espiritual, moral, sanitária, subjetiva.

Na modernidade, esse modelo se desloca para o Estado, a ciência, a psicologia, o marketing. Todos esses campos passam a exercer funções pastorais seculares: conduzem, cuidam, normatizam.


4. Ainda obedecemos: o pastoral no cotidiano

Mesmo em sociedades ditas “laicas”, o poder pastoral está em toda parte:

  • Quando seguimos influencers em busca de autoajuda espiritual disfarçada;
  • Quando acreditamos que basta “pensar positivo” para sermos salvos do fracasso;
  • Quando clínicas (inclusive terapêuticas) prometem cura e verdade interior;
  • Quando a culpa é usada como ferramenta de controle nos discursos religiosos, institucionais e familiares.

O neoliberalismo, por exemplo, é um pastor que promete liberdade — mas só se você obedecer às regras da produtividade, do esforço e do sucesso individual.


5. Como resistir ao poder pastoral?

Foucault propõe a ética da desobediência, da crítica e da inquietação como forma de resistência.

Resistir ao poder pastoral não é recusar todo cuidado — é recusar o cuidado que exige submissão para funcionar.

É preciso:

  • Produzir práticas de escuta que não moralizem o sofrimento;
  • Recusar o discurso que nos infantiliza em nome do bem;
  • Criar espaços onde o sujeito possa se responsabilizar sem se submeter;
  • Reconhecer que nem todo “salvamento” é gesto ético — às vezes é só dominação disfarçada de amor.

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